A Luneta Mágica
De Joaquim Manoel de Macedo
23 de abr. de 2012
Refletindo
Foram as percepções e as opostas versões das visões que Simplicio vivenciou, que o permitiram, com base nas duas, conseguir chegar a visão do bom senso e ter a capacidade assim então de formular sozinho sua opinião sobre as pessoas, os sentimentos e o mundo. É com base em experiências, tanto nas boas quanto nas ruins, que evoluímos e aprendemos.
“A experiência é uma escola onde são caras as lições, mas em nenhuma outra os tolos podem aprender.”- George Bernard Shaw
Através desse assunto surgiu-nos a imagem do Yin Yang, representação do positivo e do negativo, sendo o princípio da dualidade, onde o bem e o mal nas proporções certas se equilibram. O lado negro é o Yin e o branco o Yang. O pequeno círculo branco no lado negro significa que o Yin possui o Yang e o círculo que o lado branco possui significa que Yang possui Yin.
Em outras palavras, como mostra o livro, não há como ser feliz procurando somente o bem, ou o mal. É necessário aprendermos a lidar com estas duas faces para encontrarmos nosso lugar no meio das duas. Mas devemos estar sempre conscientes que não há bem sem o mal, e não há o mal sem o bem. Sendo assim nenhuma verdade é a verdade absoluta.
"A verdade é que não há a verdade"- Pablo Neruda.
Renascer
Aquela tola criança enganada sempre pelos olhos, foi salva
pelas orelhas: Armênio a segurou antes que cometesse esse erro. Grato sorriu ao
mágico, esse feliz viu que o coração de Simplício havia se voltado a Deus:
morreu louco e renasceu ajuizado!
Armênio adivinhou o quase suicídio e além da salvação lhe
trouxe também uma terceira luneta:
“ Para te levar à verdade já te lancei duas vezes no caminho do erro. Erraste
acreditando no mal, erraste acreditando no bem, que te mostraram tuas duas
lunetas, que exageraram o mal e o bem, ostentando cada uma o exclusivismo falaz
do seu encantamento especial. Resolvi dar-te hoje a mais preciosa, mas também a
última das lunetas mágicas que de mim terás.
—Qual?...
—Oh! a visão da sabedoria...
—Quase.
—Serei feliz... perfeitamente feliz!
—Nem assim.
—Por quê?...
—Porque o homem é o homem.
—Não entendo.
—Porque ainda com o bom senso há ardendo na alma do homem
uma flama insaciável, que torna impossível a felicidade perfeita.
—Que flama é essa?
—A do desejo— de desejo que tem mil sobrenomes — amor,
glória, ambição, ouro,
honras, luxo, gula, vingança .. e muito mais que eu não
acabaria de dizer nem em duas horas.
—Ao menos porém a visão do bom senso não me tornará nem
cético, nem ludibrio do mundo e dos homens.
—E não sofrerás menos por isso
—Como?
—Pela visão do bom senso reconhecerás, onde está o bem e o
mal, e mil vezes não
poderás aproveitar o bem, e livrar-te do mal.
—Mas é incompreensível!
—A pesar teu serás arrastado para longe do bem e para os
precipícios do mal...
—Resistirei.
—Serás o censor de muitos e o reprovado de quase todos...
—Que importa?
—Os homens te condenarão contraditoriamente, como republicano e áulico, excêntrico e tolo, ateu e fanático, imoral e hipócrita,
presumido e estúpido, santilão e demônio
—Terás pois a luneta; mas será a última
—Conservá-la-ei sempre.
—Quebrá-la-ás.
—Conterá ela também a visão do futuro?
—Como, se é a do bom senso?—Criança, a visão do futuro não
pode ser mais do que uma combinação de probabilidades feitas à luz do passado.
—Então juro que conservarei a luneta do bom senso por toda a
minha vida.
—Fá-la-ás em pedaços e intencionalmente.
—Porque é melhor não ver.
—Oh! não...
—Fixa a luneta! gritou-me com sua voz ronca o armênio.
Obedeci, e fixando a luneta mágica, vi diante de mim o
mágico melancólico e
carrancudo, e o meu amigo Reis agradável e risonho.
O armênio voltou-nos imediatamente as costas, e desapareceu logo, descendo
apressado a montanha.
O Reis abraçou-me: e disse:
—Aquele homem é irresistível; adivinhou o ato de loucura que
o senhor ia praticar, e prometeu-me salvá-lo sob duas condições, de que não quis
prescindir: a primeira foi que eu conviesse em ser-lhe dada uma terceira e
última luneta mágica, que teria a visão do bom senso; a segunda que eu
consentiria em expor à venda no meu armazém lunetas mágicas com a visão do bom
senso.”
A morte
Um dia ao passar por um enterro Simplício viu a morte, que
tanto é julgada e caluniada pelos homens, porém essa na verdade é o principio
da vida e da luz. Ela é o Jordão que lava as culpas:
“ Eu desejava, almejava morrer. Morrer era começar a viver... e a viver que vida de
delícias! Eu acabava de conceber a idéia, e de abraçar-me com a idéia do
suicídio.”
A
visão do bem agora o levava completamente ao “mal”. Simplício examinou a cidade
e se lembrou de um bom lugar para se livrar desse peso que carregava, chamado
de vida. Ele iria se atirar do Corcovado! No caminho da ladeira encontrou um
homem com quem conversou um pouco sobre a morte, até um pedaço subiram o morro
juntos, mas depois se separam e Simplício voltou a refletir sozinho:
“Oh! eu vou morrer, por que não experimentarei a visão do
futuro?... que me importa que se quebre a luneta, quando mais não posso usar
dela?”
Então, ao
chegar no corcovado olhou o abismo que havia embaixo dos seus pés, e antes de
se jogar realizou seu ultimo desejo: fixando a luneta sobre o Rio, e aos treze
minutos ela novamente se espatifou.
Na escuridão dos olhos Simplício correu para o abismo
berrando: adeus!
Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação? Serão noites inteiras, talvez por medo da escuridão. Ficaremos acordados, imaginando alguma solução: pra que esse nosso egoísmo, não destrua nosso coração
“Mas, eu o confesso, a própria visão do bem não é isenta de
inconvenientes, e a cada
dia que passava, alguma nova contrariedade vinha perturbar a
doce vida que eu vivia.”
Um dia resolveu observar a verdade dentro do interior dos
condenados por crimes horríveis, mas todos eram inocentes. Resolveu fitar então
os condenadores, porém esses também tinham sentenciado com acerto! Simplício
tentava entender a contradição, chegando a duas possíveis soluções: ou provas
fortíssimas, porém de falsidade infelizmente não conhecida, tinham, condenando
os réus, justificado os juizes; ou a sua luneta mágica mentia e o enganava com
a visão do bem. Mas é claro que ele acreditou na primeira hipótese.
“ Quando meu irmão entrou para jantar, tinha eu a luneta
fixada, e quase o desconheci, tão descomposta pela cólera estava a sua
fisionomia.
Ele avançava sobre mim; mas eu escondi no seio a luneta, e a
tia Domingas e a prima Anica vieram correndo em meu socorro.
—Que é isto? perguntou a primeira assustada.
—É este doido, este frenético esbanjador, que em menos de
dois meses atirou ao meio da rua trinta e dois contos de reis!...
—Misericódia! exclamou a tia Domingas.
—É possível?... disse Anica, perguntando-me.”
A família do pobre Simplício apenas estava tentando protege-lo dos lábios das interesseiras e das garras dos caluniadores, onde
ambos o roubavam e o convenciam de suas mentiras. Porém, Simplicio por achar que estava certo, não gostou de ver mano Américo se metendo na sua
vida; e brabo por estar proibido, como criança pequena, de sair de casa fugiu
por uma janelinha nos fundos.
Agora Simplício vagava pela cidade, e questionava os motivos de
tantas contradições, muitos diziam que ele estava sendo zombado como ridículo:
pelas péssimas companhias que andava e pelos boatos que corria pela cidade,
onde Simplício era roubado sem nem perceber ou suspeitar do que seus “amigos”
faziam.
"Será que a minha luneta mente?"
Refletindo
Essa luneta é para nós como a
primeira, só que neste caso ela projeta somente a visão do bem. Agora a família
de Simplício voltou a ser o mar de rosas que era antes de ele entrar em contato
com a maldade. Agora ele voltou a ver somente a inocência em tudo e todos,
assim como a que ele “via” quando era um míope sem lunetas.
Mas como será que Simplício
mudara tão fácil de opinião? Antes ele amaldiçoou toda a criança divina e agora
com essa visão nova passa a amar
tudo o que olha? E as jovens lindas e formosas com quem ele anda? Serão elas
realmente inocentes? Francamente, nós achamos e prevemos que Simplício terá sua
fortuna secada que nem pingo de água em chapa quente do fogão: Pelas suas
companheiras, que julgamos prostitutas, pelos locais que freqüentam e pelas opiniões
de amigos do Simplício; e ele será sugado também por esses seus novos amigos,
que apostamos que sumirão assim que a água do poço secar e as vacas ficarem
magras.
Nossa, será que é tão difícil se
convencer que essa visão que Simplício acha ser do bem na verdade está lhe
causando o mal?
Ao que notamos ele não aprendeu nada
com a primeira luneta que lhe trouxe sofrimentos, devido a enorme confiança que
despejo sobre ela, assim como faz com a segunda que também está começando a lhe
trazer tristezas.
Nesse ponto devemos concordar que
Simplício realmente tem miopia moral! Antes, achávamos que não, e isso era só
uma idéia da sua cabeça, porém, agora refletimos que só um tolo para acreditar
mas nos seus olhos, que uma vez já o enganaram, do que acreditar naqueles que
ele procurou quando precisou, e sempre foi muito bem atendido; como o Reis, que
disse que Nunes era homem de mau-caráter com idéias interesseiras. Mas
Simplício não deu bola, e seguiu defendendo e bajulando seu “amigo” Nunes.
A felicidade está em todos os lados
De tão alegre que Simplício
estava até mandou um artigo para todas as gazetas da cidade, anunciando e
elogiando o armazém do Reis, que foi o local da fabricação de sua deslumbrante
luneta mágica. Mas isso não agradou ao Reis, que brabo não queria a fama de ter
um armazém mágico, ele, apesar de tudo, não acreditava na magia do seu
empregado armênio; Reis enxergava apenas o mundo com seus olhos cientistas.
Devido a isso, proibiu o armênio de fabricar qualquer outro tipo de luneta ou
objeto mágico e caso descumprisse suas ordens seria despedido, pelo bem da
reputação do seu armazém! Simplício ficou chateado em descontentar o amigo, mas
não fez por maldade, oposto disso, fez isso para aumentar a clientela do Reis
que tanto o ajudara.
"Dizem que com uma paixão mata-se outra: é engano! Eu já me abraso em trinta e três paixões, e creio que irei além. "
Simplício fez vários amigos, era tão intimo de todos que
confiava seu dinheiro para eles,
não se importava em emprestar grandes quantias, bem pelo contrario,
Simplício sentia-se mais leve quando emprestava a um amigo que passava grandes
dificuldades como mostrava sua luneta mágica.
Emprestou grande quantia também
ao senhor Nunes, que prometeu pagar assim que possível, dava jóias e pagava
jantares as moças com ideais virgens, como a Esmeralda, por exemplo. Sempre na
rua, no teatro e em outros lugares Simplício escutava comentários relacionado
as pessoas com quem ele andara ultimamente, diziam que suas amigas e
companheiras eram de baixa moral, prostitutas. Seus amigos não passavam de
trapaceiros, desprezados por qualquer homem em sua sã consciência. Mas
Simplício não acreditava nas palavras do povo, pois via a verdade com clareza
diante de seus olhos, e sabia que nenhum dos seus amigos eram caluniadores ou
algo do gênero.
A visão do bem
No dia seguinte
a meia noite Simplício estava no armazém do Reis e o armênio já o esperava na
porta do seu gabinete:
Simplício
ao sair do gabinete, prometeu ao mágico e a si próprio que obedeceria os
conselhos do armênio, mas como já previsto no mesmo dia ao chegar em casa não resistiu
a tentação e fixou a luneta sobre
a prima por mais de três minutos, entrando na visão do bem.. Anica era um anjo
de inocência e simplicidade, o que antes Simplicio julgara nela como gelo do
coração era simplesmente virginal recato, ela é a mulher que reúne todos os dotes para felicitar o homem que
for seu esposo.
A
Tia Domingas, era a devoção, uma
santa velha, o que ela faz em obrar de caridade só Deus e Simplício, que a
contemplo por dentro, sabem!
E
o mano Américo, é o tipo de irmão que vive pensando em Simplício e negociando
por ele. Quando Simplício o julgo como interesseiro e ladrão da sua própria
família, ele viu errado. Todo o dinheiro que pertence ao irmão é do seu suado
trabalho!!
“Abençoado
seja o armênio! Abençoada seja a luneta mágica que me deu a visão do bem.”
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