23 de abr. de 2012

Refletindo


     Foram as percepções e as opostas versões das visões que Simplicio vivenciou, que o permitiram, com base nas duas, conseguir chegar a visão do bom senso e ter a capacidade assim então de formular sozinho sua opinião sobre as pessoas, os sentimentos e o mundo. É com base em experiências, tanto nas boas quanto nas ruins, que evoluímos e aprendemos. 

“A experiência é uma escola onde são caras as lições, mas em nenhuma outra os tolos podem aprender.”- George Bernard Shaw

        Através desse assunto surgiu-nos a imagem do Yin Yang, representação do positivo e do negativo, sendo o princípio da dualidade, onde o bem e o mal nas proporções certas se equilibram. O lado negro é o Yin e o branco o Yang. O pequeno círculo branco no lado negro significa que o Yin possui o Yang e o círculo que o lado branco possui significa que Yang possui Yin.
Em outras palavras, como mostra o livro, não há como ser feliz procurando somente o bem, ou o mal. É necessário aprendermos a lidar com estas duas faces para encontrarmos nosso lugar no meio das duas. Mas devemos estar sempre conscientes que não há bem sem o mal, e não há o mal sem o bem. Sendo assim nenhuma verdade é a verdade absoluta.

"A verdade é que não há a verdade"- Pablo Neruda.

Renascer

     Aquela tola criança enganada sempre pelos olhos, foi salva pelas orelhas: Armênio a segurou antes que cometesse esse erro. Grato sorriu ao mágico, esse feliz viu que o coração de Simplício havia se voltado a Deus: morreu louco e renasceu ajuizado!
Armênio adivinhou o quase suicídio e além da salvação lhe trouxe também uma terceira luneta:

“ Para te levar à verdade já te lancei duas vezes no caminho do erro. Erraste acreditando no mal, erraste acreditando no bem, que te mostraram tuas duas lunetas, que exageraram o mal e o bem, ostentando cada uma o exclusivismo falaz do seu encantamento especial. Resolvi dar-te hoje a mais preciosa, mas também a última das lunetas mágicas que de mim terás.

—Qual?...

—Aquela que te fará gozar a visão do bom senso.

—Oh! a visão da sabedoria...

—Quase.

—Serei feliz... perfeitamente feliz!

—Nem assim.

—Por quê?...

—Porque o homem é o homem.

—Não entendo.

—Porque ainda com o bom senso há ardendo na alma do homem uma flama insaciável, que torna impossível a felicidade perfeita.

—Que flama é essa?

—A do desejo— de desejo que tem mil sobrenomes — amor, glória, ambição, ouro,
honras, luxo, gula, vingança .. e muito mais que eu não acabaria de dizer nem em duas horas.

—Ao menos porém a visão do bom senso não me tornará nem cético, nem ludibrio do mundo e dos homens.

—E não sofrerás menos por isso          

—Como?

—Pela visão do bom senso reconhecerás, onde está o bem e o mal, e mil vezes não
poderás aproveitar o bem, e livrar-te do mal.

—Mas é incompreensível!

—A pesar teu serás arrastado para longe do bem e para os precipícios do mal...

—Resistirei.

—Serás o censor de muitos e o reprovado de quase todos...

—Que importa?

—Os homens te condenarão  contraditoriamente, como republicano e áulico, excêntrico e tolo, ateu e fanático, imoral e hipócrita, presumido e estúpido, santilão e demônio

—Rir-me-ei deles.
—Terás pois a luneta; mas será a última

—Conservá-la-ei sempre.

—Quebrá-la-ás.

—Conterá ela também a visão do futuro?

—Como, se é a do bom senso?—Criança, a visão do futuro não pode ser mais do que uma combinação de probabilidades feitas à luz do passado.

—Então juro que conservarei a luneta do bom senso por toda a minha vida.

—Fá-la-ás em pedaços e intencionalmente.

—Por quê?

—Porque é melhor não ver.

—Oh! não...

—Fixa a luneta! gritou-me com sua voz ronca o armênio.

Obedeci, e fixando a luneta mágica, vi diante de mim o mágico melancólico e
carrancudo, e o meu amigo Reis agradável e risonho.
O armênio voltou-nos imediatamente as  costas, e desapareceu logo, descendo apressado a montanha.

O Reis abraçou-me: e disse:

—Aquele homem é irresistível; adivinhou o ato de loucura que o senhor ia praticar, e prometeu-me salvá-lo sob duas condições, de que não quis prescindir: a primeira foi que eu conviesse em ser-lhe dada uma terceira e última luneta mágica, que teria a visão do bom senso; a segunda que eu consentiria em expor à venda no meu armazém lunetas mágicas com a visão do bom senso.”

A morte

    Um dia ao passar por um enterro Simplício viu a morte, que tanto é julgada e caluniada pelos homens, porém essa na verdade é o principio da vida e da luz. Ela é o Jordão que lava as culpas:

“ Eu desejava, almejava morrer. Morrer era começar a viver... e a viver que vida de delícias! Eu acabava de conceber a idéia, e de abraçar-me com a idéia do suicídio.”

    A visão do bem agora o levava completamente ao “mal”. Simplício examinou a cidade e se lembrou de um bom lugar para se livrar desse peso que carregava, chamado de vida. Ele iria se atirar do Corcovado! No caminho da ladeira encontrou um homem com quem conversou um pouco sobre a morte, até um pedaço subiram o morro juntos, mas depois se separam e Simplício voltou a refletir sozinho:

“Oh! eu vou morrer, por que não experimentarei a visão do futuro?... que me importa que se quebre a luneta, quando mais não posso usar dela?”

   Então, ao chegar no corcovado olhou o abismo que havia embaixo dos seus pés, e antes de se jogar realizou seu ultimo desejo: fixando a luneta sobre o Rio, e aos treze minutos ela novamente se espatifou.
Na escuridão dos olhos Simplício correu para o abismo berrando: adeus!

Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação? Serão noites inteiras, talvez por medo da escuridão. Ficaremos acordados, imaginando alguma solução: pra que esse nosso egoísmo, não destrua nosso coração

      “Mas, eu o confesso, a própria visão do bem não é isenta de inconvenientes, e a cada
dia que passava, alguma nova contrariedade vinha perturbar a doce vida que eu vivia.”

Um dia resolveu observar a verdade dentro do interior dos condenados por crimes horríveis, mas todos eram inocentes. Resolveu fitar então os condenadores, porém esses também tinham sentenciado com acerto! Simplício tentava entender a contradição, chegando a duas possíveis soluções: ou provas fortíssimas, porém de falsidade infelizmente não conhecida, tinham, condenando os réus, justificado os juizes; ou a sua luneta mágica mentia e o enganava com a visão do bem. Mas é claro que ele acreditou na primeira hipótese.

“ Quando meu irmão entrou para jantar, tinha eu a luneta fixada, e quase o desconheci, tão descomposta pela cólera estava a sua fisionomia.

—Quebra essa luneta! exclamou furioso e com voz de trovão.

Ele avançava sobre mim; mas eu escondi no seio a luneta, e a tia Domingas e a prima Anica vieram correndo em meu socorro.

—Que é isto? perguntou a primeira assustada.

—É este doido, este frenético esbanjador, que em menos de dois meses atirou ao meio da rua trinta e dois contos de reis!...

—Misericódia! exclamou a tia Domingas.

—É possível?... disse Anica, perguntando-me.”

      A família do pobre Simplício apenas estava tentando protege-lo dos lábios das interesseiras e das garras dos caluniadores, onde ambos o roubavam e o convenciam de suas mentiras. Porém, Simplicio por achar que estava certo, não gostou de ver mano Américo se metendo na sua vida; e brabo por estar proibido, como criança pequena, de sair de casa fugiu por uma janelinha nos fundos.
     Agora Simplício vagava pela cidade, e questionava os motivos de tantas contradições, muitos   diziam que ele estava sendo zombado como ridículo: pelas péssimas companhias que andava e pelos boatos que corria pela cidade, onde Simplício era roubado sem nem perceber ou suspeitar do que seus “amigos” faziam.

"Será que a minha luneta mente?"

Refletindo

Essa luneta é para nós como a primeira, só que neste caso ela projeta somente a visão do bem. Agora a família de Simplício voltou a ser o mar de rosas que era antes de ele entrar em contato com a maldade. Agora ele voltou a ver somente a inocência em tudo e todos, assim como a que ele “via” quando era um míope sem lunetas.
Mas como será que Simplício mudara tão fácil de opinião? Antes ele amaldiçoou toda a criança divina e agora com essa visão nova  passa a amar tudo o que olha? E as jovens lindas e formosas com quem ele anda? Serão elas realmente inocentes? Francamente, nós achamos e prevemos que Simplício terá sua fortuna secada que nem pingo de água em chapa quente do fogão: Pelas suas companheiras, que julgamos prostitutas, pelos locais que freqüentam e pelas opiniões de amigos do Simplício; e ele será sugado também por esses seus novos amigos, que apostamos que sumirão assim que a água do poço secar e as vacas ficarem magras.
Nossa, será que é tão difícil se convencer que essa visão que Simplício acha ser do bem na verdade está lhe causando o mal?
Ao que notamos ele não aprendeu nada com a primeira luneta que lhe trouxe sofrimentos, devido a enorme confiança que despejo sobre ela, assim como faz com a segunda que também está começando a lhe trazer tristezas.
Nesse ponto devemos concordar que Simplício realmente tem miopia moral! Antes, achávamos que não, e isso era só uma idéia da sua cabeça, porém, agora refletimos que só um tolo para acreditar mas nos seus olhos, que uma vez já o enganaram, do que acreditar naqueles que ele procurou quando precisou, e sempre foi muito bem atendido; como o Reis, que disse que Nunes era homem de mau-caráter com idéias interesseiras. Mas Simplício não deu bola, e seguiu defendendo e bajulando seu “amigo” Nunes.
Normalmente as pessoas acreditam somente naquilo que vêm. Mas para quem já passou pela experiência e viu que, o que vemos nem sempre corresponde com a realidade, não há o porque de não querer acreditar que seus olhos estão equivocados. Contudo, Simplício deve estar adorando ser apaixonado e contemplar a paixão que as mulheres sentem no seu interior por ele, deve estar se sentindo o popular, cheio dos “amigos” e parceiros de apostas e jogos de cartas, vários convites a bailes e jantares.. é deve ser por isso que ele não vê que há o mau contido na sua luneta do bem: ele não quer ver. 

A felicidade está em todos os lados


“ Ainda bem que eu posso enfim ver e apreciar a verdade, e pelo conhecimento da verdade viver a mais ditosa, e risonhas das vidas.”


 De tão alegre que Simplício estava até mandou um artigo para todas as gazetas da cidade, anunciando e elogiando o armazém do Reis, que foi o local da fabricação de sua deslumbrante luneta mágica. Mas isso não agradou ao Reis, que brabo não queria a fama de ter um armazém mágico, ele, apesar de tudo, não acreditava na magia do seu empregado armênio; Reis enxergava apenas o mundo com seus olhos cientistas. Devido a isso, proibiu o armênio de fabricar qualquer outro tipo de luneta ou objeto mágico e caso descumprisse suas ordens seria despedido, pelo bem da reputação do seu armazém! Simplício ficou chateado em descontentar o amigo, mas não fez por maldade, oposto disso, fez isso para aumentar a clientela do Reis que tanto o ajudara.
Em todos os lugares que Simplício direcionava sua luneta, não vi nada além de pureza e amor. Todas as mulheres o desejavam com a mais suave inocência e implorando elas para que esse amor ardente não seja notado por Simplício. Todas mulheres eram lindas, jovens com corações puros e almas apaixonadas. Anica, até ela era apaixonada por Simplício, ele via isso toda vez que a fitava com sua luneta, ele via o amor que crescia dentro dela por ele, até pensou em pedir a prima em casamento. Porém, ele estava indeciso! Eram dezenas de jovens lindas e por todas elas Simplício derretia de amores platônicos; o amor que ele sentia era exatamente igual por todas elas, chegando a fazer com que ele sofresse, pois não conseguia decidir de qual pedia a mão.

"Dizem que com uma paixão mata-se outra: é engano! Eu já me abraso em trinta e três paixões, e creio que irei além. "

 Simplício fez vários amigos, era tão intimo de todos que confiava seu dinheiro para eles,  não se importava em emprestar grandes quantias, bem pelo contrario, Simplício sentia-se mais leve quando emprestava a um amigo que passava grandes dificuldades como mostrava sua luneta mágica.
Emprestou grande quantia também ao senhor Nunes, que prometeu pagar assim que possível, dava jóias e pagava jantares as moças com ideais virgens, como a Esmeralda, por exemplo. Sempre na rua, no teatro e em outros lugares Simplício escutava comentários relacionado as pessoas com quem ele andara ultimamente, diziam que suas amigas e companheiras eram de baixa moral, prostitutas. Seus amigos não passavam de trapaceiros, desprezados por qualquer homem em sua sã consciência. Mas Simplício não acreditava nas palavras do povo, pois via a verdade com clareza diante de seus olhos, e sabia que nenhum dos seus amigos eram caluniadores ou algo do gênero.

A visão do bem

      No dia  seguinte a meia noite Simplício estava no armazém do Reis e o armênio já o esperava na porta do seu gabinete:

“ - Dou-te pela segunda vez uma luneta mágica: verás por ela quanto desejares ver; verás muito; mas poderás ver demais. Novamente não fixe essa luneta por mais de três minutos em, sobretudo, homem alguém ou mulher alguma. Senão verás a visão do bem, que o meu poder de mágico não pode impedir, a visão do bem será a vingança do silfo que escravizei para teu serviço; e digo-lhe que novamente não serás feliz, com a luneta.”

     Simplício ao sair do gabinete, prometeu ao mágico e a si próprio que obedeceria os conselhos do armênio, mas como já previsto no mesmo dia ao chegar em casa não resistiu a tentação e  fixou a luneta sobre a prima por mais de três minutos, entrando na visão do bem.. Anica era um anjo de inocência e simplicidade, o que antes Simplicio julgara nela como gelo do coração era simplesmente virginal recato, ela é  a mulher que reúne todos os dotes para felicitar o homem que for seu esposo.
     A Tia Domingas,  era a devoção, uma santa velha, o que ela faz em obrar de caridade só Deus e Simplício, que a contemplo por dentro, sabem!
      E o mano Américo, é o tipo de irmão que vive pensando em Simplício e negociando por ele. Quando Simplício o julgo como interesseiro e ladrão da sua própria família, ele viu errado. Todo o dinheiro que pertence ao irmão é do seu suado trabalho!!

            “Abençoado seja o armênio! Abençoada seja a luneta mágica que me deu a visão do bem.”