23 de abr. de 2012

Renascer

     Aquela tola criança enganada sempre pelos olhos, foi salva pelas orelhas: Armênio a segurou antes que cometesse esse erro. Grato sorriu ao mágico, esse feliz viu que o coração de Simplício havia se voltado a Deus: morreu louco e renasceu ajuizado!
Armênio adivinhou o quase suicídio e além da salvação lhe trouxe também uma terceira luneta:

“ Para te levar à verdade já te lancei duas vezes no caminho do erro. Erraste acreditando no mal, erraste acreditando no bem, que te mostraram tuas duas lunetas, que exageraram o mal e o bem, ostentando cada uma o exclusivismo falaz do seu encantamento especial. Resolvi dar-te hoje a mais preciosa, mas também a última das lunetas mágicas que de mim terás.

—Qual?...

—Aquela que te fará gozar a visão do bom senso.

—Oh! a visão da sabedoria...

—Quase.

—Serei feliz... perfeitamente feliz!

—Nem assim.

—Por quê?...

—Porque o homem é o homem.

—Não entendo.

—Porque ainda com o bom senso há ardendo na alma do homem uma flama insaciável, que torna impossível a felicidade perfeita.

—Que flama é essa?

—A do desejo— de desejo que tem mil sobrenomes — amor, glória, ambição, ouro,
honras, luxo, gula, vingança .. e muito mais que eu não acabaria de dizer nem em duas horas.

—Ao menos porém a visão do bom senso não me tornará nem cético, nem ludibrio do mundo e dos homens.

—E não sofrerás menos por isso          

—Como?

—Pela visão do bom senso reconhecerás, onde está o bem e o mal, e mil vezes não
poderás aproveitar o bem, e livrar-te do mal.

—Mas é incompreensível!

—A pesar teu serás arrastado para longe do bem e para os precipícios do mal...

—Resistirei.

—Serás o censor de muitos e o reprovado de quase todos...

—Que importa?

—Os homens te condenarão  contraditoriamente, como republicano e áulico, excêntrico e tolo, ateu e fanático, imoral e hipócrita, presumido e estúpido, santilão e demônio

—Rir-me-ei deles.
—Terás pois a luneta; mas será a última

—Conservá-la-ei sempre.

—Quebrá-la-ás.

—Conterá ela também a visão do futuro?

—Como, se é a do bom senso?—Criança, a visão do futuro não pode ser mais do que uma combinação de probabilidades feitas à luz do passado.

—Então juro que conservarei a luneta do bom senso por toda a minha vida.

—Fá-la-ás em pedaços e intencionalmente.

—Por quê?

—Porque é melhor não ver.

—Oh! não...

—Fixa a luneta! gritou-me com sua voz ronca o armênio.

Obedeci, e fixando a luneta mágica, vi diante de mim o mágico melancólico e
carrancudo, e o meu amigo Reis agradável e risonho.
O armênio voltou-nos imediatamente as  costas, e desapareceu logo, descendo apressado a montanha.

O Reis abraçou-me: e disse:

—Aquele homem é irresistível; adivinhou o ato de loucura que o senhor ia praticar, e prometeu-me salvá-lo sob duas condições, de que não quis prescindir: a primeira foi que eu conviesse em ser-lhe dada uma terceira e última luneta mágica, que teria a visão do bom senso; a segunda que eu consentiria em expor à venda no meu armazém lunetas mágicas com a visão do bom senso.”

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