Aquela tola criança enganada sempre pelos olhos, foi salva
pelas orelhas: Armênio a segurou antes que cometesse esse erro. Grato sorriu ao
mágico, esse feliz viu que o coração de Simplício havia se voltado a Deus:
morreu louco e renasceu ajuizado!
Armênio adivinhou o quase suicídio e além da salvação lhe
trouxe também uma terceira luneta:
“ Para te levar à verdade já te lancei duas vezes no caminho do erro. Erraste
acreditando no mal, erraste acreditando no bem, que te mostraram tuas duas
lunetas, que exageraram o mal e o bem, ostentando cada uma o exclusivismo falaz
do seu encantamento especial. Resolvi dar-te hoje a mais preciosa, mas também a
última das lunetas mágicas que de mim terás.
—Qual?...
—Oh! a visão da sabedoria...
—Quase.
—Serei feliz... perfeitamente feliz!
—Nem assim.
—Por quê?...
—Porque o homem é o homem.
—Não entendo.
—Porque ainda com o bom senso há ardendo na alma do homem
uma flama insaciável, que torna impossível a felicidade perfeita.
—Que flama é essa?
—A do desejo— de desejo que tem mil sobrenomes — amor,
glória, ambição, ouro,
honras, luxo, gula, vingança .. e muito mais que eu não
acabaria de dizer nem em duas horas.
—Ao menos porém a visão do bom senso não me tornará nem
cético, nem ludibrio do mundo e dos homens.
—E não sofrerás menos por isso
—Como?
—Pela visão do bom senso reconhecerás, onde está o bem e o
mal, e mil vezes não
poderás aproveitar o bem, e livrar-te do mal.
—Mas é incompreensível!
—A pesar teu serás arrastado para longe do bem e para os
precipícios do mal...
—Resistirei.
—Serás o censor de muitos e o reprovado de quase todos...
—Que importa?
—Os homens te condenarão contraditoriamente, como republicano e áulico, excêntrico e tolo, ateu e fanático, imoral e hipócrita,
presumido e estúpido, santilão e demônio
—Terás pois a luneta; mas será a última
—Conservá-la-ei sempre.
—Quebrá-la-ás.
—Conterá ela também a visão do futuro?
—Como, se é a do bom senso?—Criança, a visão do futuro não
pode ser mais do que uma combinação de probabilidades feitas à luz do passado.
—Então juro que conservarei a luneta do bom senso por toda a
minha vida.
—Fá-la-ás em pedaços e intencionalmente.
—Porque é melhor não ver.
—Oh! não...
—Fixa a luneta! gritou-me com sua voz ronca o armênio.
Obedeci, e fixando a luneta mágica, vi diante de mim o
mágico melancólico e
carrancudo, e o meu amigo Reis agradável e risonho.
O armênio voltou-nos imediatamente as costas, e desapareceu logo, descendo
apressado a montanha.
O Reis abraçou-me: e disse:
—Aquele homem é irresistível; adivinhou o ato de loucura que
o senhor ia praticar, e prometeu-me salvá-lo sob duas condições, de que não quis
prescindir: a primeira foi que eu conviesse em ser-lhe dada uma terceira e
última luneta mágica, que teria a visão do bom senso; a segunda que eu
consentiria em expor à venda no meu armazém lunetas mágicas com a visão do bom
senso.”
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